Generalidades
Há um grupo de alterações das unhas, principalmente do grande artelho (hálux), que são indevidamente agrupadas e diagnosticadas como “unhas encravadas”, “unhas encarnadas” ou “onychocryptosis”. O desconhecimento das várias patologias das unhas e estruturas anexas perpetuam as dificuldades diagnósticas e terapêuticas que caracterizam estes “pequenos” problemas dos pés. Procuraremos nos concentrar sobre o tema de “unhas encravadas” por ser a alteração mais freqüente e passível de tratamento ambulatorial em pequenas clínicas e consultórios.Os problemas ungueais são achados bastante comuns e incapacitantes e podem ser divididos segundo FROST (1950), conforme o defeito básico, em:

1. Placa ungueal normal com formação de uma espícula no sulco ungueal resultante do corte incorreto da borda ungueal.
2. Encurvamento da placa ungueal resultando em bordas invertidas - “unha encurvada” ou “unha em telha colonial”.
3. Placa ungueal normal com hipertrofia da prega ungueal.

Etiologia

Dentre os fatores etiológicos principais, destacam-se as alterações congênitas da unha e das estruturas para-ungueais (formato arqueado primitivo, malformações das falanges, hipertrofia congênita da prega ungueal), a ação mecânica dos calçados e dos traumas sobre os bordos ungueais, a forma incorreta de corte das unhas (arredondado) e as causas infecciosas (onicomicoses).

Clínica
Fase Aguda: Dor intensa à deambulação e à palpação do bordo ungueal que se mostra inchado e avermelhado. Em pouco tempo instala-se processo infeccioso que agrava a sintomatologia além da presença de secreção purulenta que se exterioriza através do sulco ungueal. A atividade esportiva é a primeira a ser comprometida; segue-se incômodo progressivo para a marcha e finalmente andar calçado se torna absolutamente impossível.
Fase Crônica: Ocorre hipertrofia do tecido de granulação na região afetada e surge uma massa tensa, avermelhada e extremamente dolorosa que recobre o sulco ungueal, projetando-se sobre a placa ungueal. Essa massa friável rompe-se facilmente dando lugar à saída de sangue e secreção purulenta. A desidratação da secreção depositada volta a ocluir o sulco ungueal, dificultando a drenagem adequada do pús que se armazena nesta região.

Tratamento


1.PROFILÁTICO - Consiste num conjunto de medidas que visam, em pacientes predispostos, evitar o aparecimento dos quadros dolorosos e infecciosos:a. Uso de calçados com câmaras anteriores amplas e que não exerçam pressão sobre as bordas ungueais.b. Higiene dos pés com soluções antissépticas e corte adequado das unhas de forma a manter sempre exteriorizados os ângulos ou “cantos” (unhas quadradas).

2.CONSERVADOR - São medidas que devem sempre preceder a indicação de tratamento cirúrgico pois, independentemente da fase em que se encontre o paciente, sempre resulta em benefícios enquanto restringe ou reduz o processo inflamatório local:

a. Elevação da borda ungueal com uma pequena espátula e, após a saída da secreção purulenta, colocação de uma pequena massa de algodão de forma a manter suspensa e livre da pele o ângulo ungueal.
b. Quando há grande hipertrofia do tecido de granulação no sulco ungueal, pode-se proceder à sua retirada com cureta, bisturí ou com a aplicação de bastão de nitrato de prata (sempre após bloqueio anestésico local).
c. Se houver processo infeccioso exuberante, além dos banhos com soluções de Permanganato de Potássio (1:40.000), indica-se antibióticoterapia sistêmica e curativos seriados que visem a drenagem sistemática da secreção colecionada.
d. Uma vez controlado o processo, iniciamos o tratamento preconizado no ítem anterior que se refera à profilaxia.
e. Nos casos de unhas congenitamente encurvadas ou em “telha colonial” realizamos medidas que visem a ortomorfia ungueal, isto é, a mudança ou correção da morfologia da unha. O mais simples e mais prático método de que dispomos é o que produz uma “afilamento” da porção central da placa ungueal. Isto pode ser obtido com o uso de lixas de unha ou lâmina de bisturi que são friccionados no maior eixo da unha no sentido de obter-se o pretendido afilamento da porção média e mais arqueada da unha de forma que ela se “desenrrole” sobre este eixo. Mais modernamente, estão sendo usadas técnicas que, à semelhança do trabalho realizado pelos ortodontistas, servem-se de pequenas peças metálicas ou plásticas coladas à superfície externa da unha às quais são acopladas arames de aço de tal forma a exercer forças de “desdobramento” das bordas ungueais.

3.CIRÚRGICO - O grande número de técnicas existentes para a abordagem destas afecções, espelha a insatisfação e as dificuldades que podem ser esperadas por quem se aventure em seu tratamento. De maneira geral, podem ser enquadrados em dois grandes grupos:
a. Técnicas baseadas na redução da prega ungueal hipertrofiada (Ney, 1923; Bartlett, 1937 e Du Vries, 1944).
b. Técnicas que se servem da extirpação da borda, da matriz e do sulco ungueal (Graham, 1929; Winograd, 1929 e Jansey, 1955).

Conclusão
No Setor de Medicina e Cirurgia do Pé da UNIFESP - Escola Paulista de Medicina, utilizamos as técnicas de Du Vries, nos casos com hipertrofia moderada da prega ungueal, e de Winograd nos casos mais graves com grande hipertrofia da prega ungueal, tecidos friáveis e infecção. Com o conjunto de medidas delineadas acima, temos obtido elevada taxa de cura (92%) com pequena taxa de complicações e recidivas (8%).A extirpação da unha se restringe aos quadros gravíssimos e recorrentes, lembrando que a retirada global da unha pode produzir uma deformidade incapacitante e dolorosa denominada “unha enclausurada”, pela elevação do lábio ungueal ou dar origem aos “onicomas”, que são ilhas ungueais que surgem a partir de restos de tecido com capacidade onicogênica deixados inadvertidamente durante a ressecção da unha.