Dra. Gisele Bellotti Vieira
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Fisiopatologia de Queimados - Infecção
Continuando...

Dando continuidade à nossa matéria, nesta edição abordaremos uma das mais severas complicações no paciente queimado
:
A INFECÇÃO.

A infecção é tida como a preocupação maior para o médico que conduz o tratamento clínico nestes pacientes. Passado o primeiro momento em que os resgates respiratórios e hemodinâmicas são prioridades cruciais, o controle da infecção, coloca-se, em seguida, como o desafio maior.
A infecção lidera causas de morbimortalidade no grande queimado. Em todos centros de tratamento de queimados (CTQs) do mundo, a infecção é a responsável por cerca de 75% dos óbitos; sendo aceitável um índice de até 80%.
No grande queimado a infecção é praticamente tida como certa, não sendo incomum um mesmo paciente apresentar três ou mais episódios de infecção durante a sua jornada de cura. E como o queimado é, acima de tudo, um paciente imunossuprimido, a sepse é tida como seu apanágio.

Etiopatogenia da Infecção

Fatores do Paciente: A infecção assume tal perfil nestes pacientes porque o organismo queimado oferece as condições ideais para o seu desenvolvimento: além da perda da integridade cutânea (barreira mecânica) contra a invasão de microorganismos e de ser um organismo imunodeprimido, o queimado é poliinvadido por tubos e cateteres, apresentando, ainda, muitos outros fatores agravantes.

Perda da Barreira Mecânica: A pele íntegra é a primeira linha de defesa contra a invasão do organismo por agentes bacterianos externos, e toda a sua estrutura constitui-se numa eficiente barreira mecânica. Mas é uma simplificação grande chamá-la apenas de barreira mecânica: a pele é um órgão inteligente e multifuncional. Os seus principais mecanismos de defesa são a queratinização, a descamação, a produção de substâncias antibacterianas, a produção de ácidos graxos livres insaturados, e o desenvolvimento de uma flora bacteriana simbiótica. A queratinização é um dos pontos-chave desta barreira. A renovação, ou seja, a descamação contínua das camadas mais externas do tegumento cutâneo, elimina bactérias que, porventura, consigam penetrar nestas camadas. Os ácidos graxos insaturados são considerados substâncias antibacterianas naturais, que influenciam no equilíbrio da flora normal da pele. A própria presença desta flora normal é capaz de impedir o aparecimento de uma flora patológica. O trauma térmico destrói este harmonioso equilíbrio, propiciando o desenvolvimento de uma flora patógena, aliada a uma importante deficiência imunológica, o que pode ocasionar o desenvolvimento de um foco infeccioso e posteriormente sepse.

Alterações Imunológicas
: O principal mecanismo de imunossupressão do paciente queimado parece ser a produção e absorção do complexo lipoprotéico (LPC), a partir da escara da pele queimada. Quanto mais extensa e profunda for a injúria térmica, maior será a produção e absorção dos LPCs pelo paciente; por conseguinte, maior será o seu comprometimento imunológico. As alterações imunológicas no queimado ocorrem tanto no sistema humoral quanto no celular.

Fatores Agravantes
: Fora a perda da integridade cutânea, e da imunossupressão que ocorre pela produção e absorção dos LPCs, muitos outros fatores, são coadjuvantes como imunossupressores; contribuindo, portanto, com a instalação e agravamento das infecções como:

- Poliinvasão de Tubos e Cateteres: O risco de infecção do paciente aumenta na proporção do número de sondas e cateteres usados pelo paciente, assim como, do tempo de permanência dos mesmos.
- Sistema Imunológico Imaturo ou Cansado: É sempre mais difícil tratar queimado nos extremos de idade: as infecções são mais graves na criança, pela sua imaturidade imunológica, e no idoso, porque o seu sistema imunológico já apresenta sinais de desgaste.
- Desnutrição Prévia: Pacientes desnutridos e debilitados carecem de proteína para produzir anticorpos, para carrear antibióticos e para cicatrização da ferida.
- Patologias Preexistentes: Patologias como epilepsia, etilismo (incluindo os estados de embriaguez alcoólicas), diabetes e hanseníase (associadas a neuropatias periféricas), além de responsáveis pelo acidente da queimadura, são, também, complicantes.
- Estados Depressivos: Depressão aguda ou depressão associada a distúrbios psiquiátricos mais graves, muitas vezes, levam o paciente a tentar o suicídio com fogo em chamas (álcool, gasolina, diesel etc.).
- Falta de Correto Suporte Nutricional: O queimado vive um estado de hipermetabolismo tão intenso, que se não houver um correto suporte nutricional, por mais reserva que tenha, o doente logo entrará em autocanibalismo. O estado de má nutrição calórico-protéica dos queimados inibe a capacidade fagocitária do neutrófilo. A deficiência vitamínica (da vitamina A, pela sua importância na resistência à infecção; da vitamina C, como auxiliar na cicatrização e no processo infeccioso; e da tiamina, como auxiliar na produção de anticorpos) facilita a infecção. A deficiência de minerais, se associada a um aumento de ferro, que funciona como alimento para os microorganismos, agrava a infecção.
- Múltiplas Transfusões de Sangue e Derivados: O queimado, com seus fatores de coagulação alterados, sendo heparinizado, e tendo de ser submetido a múltiplos processos cirúrgicos, é quase impossível imaginá-la não necessitando de hemoderivados.
- Utilização de Múltiplos Antibióticos: Além da toxidade, em si, que é inerente a todo antibiótico, o uso indiscriminado de antibióticos de amplo espectro destrói a flora endógena do paciente queimado, favorecendo o desenvolvimento de germes hospitalares super resistentes.
- Processos Cirúrgicos Múltiplos: Os múltiplos processos cirúrgicos, seus jejuns prolongados, suas sedações anestésicas e até mesmo as baixas temperaturas dos centros cirúrgicos possibilitam uma boa refrigeração para cirurgiões encapotados mas hipotermizam o queimado; conturbam ainda mais o momento cirúrgico, ato, em si, já crítico pela possibilidade de difundir sistêmicamente (através da manipulação) um processo infeccioso tópico.

Apresentação das Infecções
Não obstante, a sepse, pela sua relevância e freqüência, ser praticamente sinônimo de infecção no paciente queimado, na prática clínica as seguintes apresentações listadas também são vistas e descritas na literatura.

Formas de apresentação Clinica da infecção no Paciente Queimado:
1. Sepse
2. Infecção da lesão
3. Pneumonia
4. Tromboflebite supurativa
5. ITU
6. Endocardite
7. Sinusite e infecção do ouvido médio
8. Condrite supurativa
9. Infecção ocular
10. Abscessos internos
11. Síndrome do choque tóxico
12. Tétano

Sepse
A sepse pode ser definida como a resposta sistêmica do organismo à invasão microbiana de qualquer natureza, sejam eles Gram-positivos, Gram-negativos, fungos ou vírus, mas uma resposta sistêmica similar pode ser vista em processos inflamatórios graves não induzidos por bactérias ou por endotoxina circulante (p.ex.: o trauma, as queimaduras, a pancreatite e no pós-operatório). Esta resposta inflamatória sistêmica vista no paciente queimado, sobretudo nos três primeiros dias pós-injúria térmica, muito similar ao visto na sepse, muitas vezes, leva o médico assistente a ter angústia quanto ao início da antibioticoterapia. Assim, como no quadro visto na sepse, ela caracteriza-se inicialmente por febre, leucocitose (os leucócitos podem estar tão elevados a ponto de ser visto como uma reação leucemóide), taquicardia, e um estado de hiperdinamismo refletido por um aumento do débito cardíaco, diminuição da resistência vascular periférica e aumento do consumo de oxigênio. A infecção, geralmente, não ocorre no queimado antes do terceiro ou quarto dia pós-injúria térmica, portanto, na grande maioria das vezes, o tempo de evolução da queimadura nos orienta com relação a este dilema. Normalmente, só passamos a nos preocupar com infecção no queimado quando o paciente, que já estava eliminando o líquido do terceiro espaço retido nos três primeiros dias de queimadura, começa a fazer retenção hídrica novamente; quando os leucócitos que já estavam se normalizando, voltam a apresentar novo padrão de piora (tanto leucocitose como leucopenia são preocupantes); quando passa a não tolerar a dieta ou a distender o abdome; quando faz alteração mais intensa da curva térmica; quando faz dessaturação dos níveis de 02, no sangue; enfim, quando o paciente, que já havia conseguido alguma estabilidade dentro do quadro, volta a apresentar piora.
Na dependência da gravidade da queimadura, das defesas do organismo, de outros fatores de co-morbidade associados e, principalmente, do retardamento diagnóstico por impossibilitar um tratamento oportuno (abordagem cirúrgica e antibioticoterapia sistêmica apropriada no momento certo), o quadro pode evoluir rapidamente para sepse grave, falência de múltiplos órgãos e óbito. A tabela abaixo adaptada de Harris RL, Musler DM, Blomm K e cols. lista as manifestações clínico-laboratoriais mais ou menos na ordem de progressão dos eventos.

Manifestações Clinicolaboratoriais da Sepse.

Comuns
Menos Comuns ou Apenas
Observadas na Sepse Grave
*Febre, calafrios
*Retenção hídrica após 72h
*Taquicardia
*Taquipnéia
*Hipoxemia
*Leucocitose
(desvio à esquerda , granulações tóxica)
*Eosinopenia
*Hipoferremia
*Irritabilidade
*Hiperglicemia em diabéticos
*Distenção abdominal, íleo paralítico
*Hipotermia
*Choque
*Acidose láctica
*Síndrome de desconforto respiratório do adulto (SDRA)
*Leucopenia
*Coagulação Intravascular Disseminada
*Estupor, coma
*Hipoglicemia
*Azotemia, olíguria

Infecção da Feridas
A infecção da queimadura ocorre principalmente pelo retardamento do desbridamento dos tecidos necróticos da ferida queimada, podendo levar ao crescimento da área queimada tanto em extensão quanto em profundidade, à perda de enxertias cutâneas e de retalhos musculares, além da possível evolução para um quadro infeccioso sistêmico.
O aumento em extensão da área queimada ocorre quando a infecção avança lateralmente nos tecidos não-queimados; o tecido perimarginal à queimadura costuma apresentar bordos elevados, indicativos de intensa reação inflamatória. Já o aprofundamento da queimadura por infecção é verificado quando, já mais tardiamente, uma área de 2º se transforma em área de 3º, passando a solicitar enxertia cutânea.
A presença de vasculite (em área não queimada) e o aparecimento de lesões metastáticas são bastante comuns nas infecções causadas por Pseudomonas aeruginosa. O odor fétido e pútrido pode indicar infecção por germes anaeróbios. Alterações de coloração da queimadura constituem sinais auxiliares no diagnóstico de infecção, podendo nos conduzir à sua etiologia: a coloração esverdeada é típica das infecções por pseudomonas, enquanto a coloração azulada está associada a infecção por proteus.

Pneumonias
O queimado, imunodeprimido que é, normalmente não faz quadro de pneumonia localizada (p.ex.: broncopneumonia). O padrão das pneumonias é difuso (típico dos quadros de sepse) porque não há defesa para localizar o processo. A queixa de dor no tórax ou no abdome superior acompanhada de dispnéia e piora do estado geral deve sempre ser confirmada com radiografia de tórax e bacterioscopia do escarro, embora a tosse produtiva nem sempre seja encontrada.
A pneumonia é uma importante causa de morte no queimado; e a injúria inalatória aumenta em duas vezes a taxa de infecção nestes pacientes. Faz-se, portanto, necessária a vigilância preventiva e fisioterapia respiratória precoce.

Tromboflebites Supurativa
Tromboflebites e abscessos contíguos a áreas de punção ou dissecções venosas são vistos com relativa freqüência no paciente queimado. É necessário que se faça uma rotina de monitorização e troca destes cateteres, ao menor sinal de dor ou inflamação local. Alguns serviços recomendam a troca de cateter e de sítio venoso a cada 72hs, a fim de minimizar este problema.
O diagnóstico de tromboflebite supurativa deve ser considerado quando houver sinais de infecção sistêmica e hemocultura positiva, na ausência (explícita) de um foco infeccioso. Na suspeita clínica, toda a extensão da veia usada na cateterização deve ser explorada sob anestesia local; uma pequena venotomia pode ser feita para colheita de material, que deverá ser encaminhado para análise histopatológica. A presença de pus no lume ou bactéria na íntima confirma o diagnóstico. A fim de se prevenir o curso em progressão de uma infecção sistêmica, se faz necessária a excisão da veia comprometida, além do uso de antibioticoterapia sistêmica. Como bactérias anaeróbias podem estar implicadas na gênese desta infecção, devem ser associadas ao esquema anti-bacteriano drogas com atividade contra anaeróbios.

Infecção de Trato Urinário (ITU)
A infecção das vias urinárias, especificamente a infecção das vias baixas (uretra e bexiga), mas também pielonefrites, é freqüentemente vista nos pacientes em uso de sondagem vesical por um período mais prolongado. A monitorização do trato urinário, pela inspeção do sumário de urina e da urino-cultura para o diagnóstico precoce e tratamento oportuno da infecção neste sítio, evita a progressão para um quadro sistêmico.

Endocardite
Tendo em vista que o paciente queimado, além de ser imunodeprimido e da poliinvasão de tubos e cateteres, passa por manipulações cirúrgicas freqüentes (desbridamentos dos tecidos desvitalizados), o diagnóstico de endocardite deve sempre ser levantado na presença de alguns destes sintomas e sinais: febre alta persistente, sopro cardíaco, esplenomegalia, hematúria, petéquias mucocutâneas e manifestações tromboembólicas. As hemoculturas são normalmente positivas. O diagnóstico é confirmado quando se detectam vegetações endocárdicas no ecocardiograma.

Sinusite e Infecção do Ouvido Médio
Queimados que requerem uso prolongado de intubação traqueal ou de sonda nasogástrica (para alimentação enteral) podem complicar com quadros de sinusite e/ou otite média. Isto ocorre devido ao edema e à inflamação na região da nasofaringe, que atrapalham a drenagem de secreção local persistente e inexplicada sepse exige um exame acurado desta área. O diagnóstico de sinusite pode ser confirmado ao se visualizar velamento de seios da face em radiografia da área. O tratamento pode ser feito como no paciente sem queimadura.

Condrite Suparativa
Como a irrigação de cartilagens é, em geral, muito pobre, as queimaduras de espessura total em orelhas, muito facilmente, convergem para infecção. O diagnóstico de condrite supurativa é feito clinicamente, quando ocorre dor e assimetria dos pavilhões auriculares. O processo, não tratado, pode evoluir para uma infecção do osso mastóide e até para abscessos intracranianos. A cartilagem infectada deve ser excisada.


Infecção Ocular
Pacientes com queimadura da área ocular, principalmente por injúria química, apresentam risco de infecção, ulceração e perfuração de córnea. Na presença de lesão, mesmo sendo mínima, é mandatória a lavagem e a irrigação com água ou soro fisiológico, uso de pomada antibiótica, além da avaliação e acompanhamento de oftalmologista.

Abscessos Internos
Embora bem raras, coleções internas de pus (abscessos hepáticos, pélvicos, subfrênicos e cerebrais) podem ser vistas em pacientes queimados, até mesmo após a alta hospitalar, sobretudo se a cobertura antibiótica recebida não tiver sido adequada.

Síndrome do Choque Tóxico (TSS)
Esta síndrome, que é causada pela absorção sérica de endotoxina produzida por Staphylococcus, tem sido relatada em crianças, e em adultos com menos freqüência, após escaldadura. Os primeiros sintomas podem surgir já nas primeiras 24 a 48h pós-queimadura, podendo evoluir para choque após três ou quatro dias. O diagnóstico é clínico e baseia-se no seguinte quadro: febre acima de 39º C, diarréia, vômitos, taquicardia, taquipnéia, irritabilidade, rush eritematoso, linfopenia e choque. A mortalidade é alta se o diagnóstico for feito tardiamente.

Tétano
A imunização contra o tétano no paciente queimado é feita de rotina nos EUA desde 1965, quando se descobriu que 70% da população tetânica de todo o país eram de queimados; desde então o tétano deixou de existir em associação com a queimadura. No Brasil, embora raramente, ainda vemos a associação de tétano e queimado, especialmente, em pacientes com mais de 35 anos de idade que viveram a sua infância em áreas não-urbanas e não receberam esquemas vacinais em época. Além disso, a imunização passiva (uso de imunoglobulinas) nem sempre está disponível em todos os centros de tratamento de queimados (uso de toxóide tetênico).
O diagnóstico de tétano pode ser feito nos queimados sem histórico vacinal ou com vacinação incompleta que, passam a queixar-se de dor e enrijecimento na musculatura cervical e torácica acompanhados de dificuldade de deglutir ou abrir a boca.
Diante do exposto é importante salientar que o trauma térmico induz à polimerização de um agregado nativo criando determinantes antigênicos que passam a ser reconhecidos pelo sistema imunológico como não próprios que entrando na circulação, leva à imunossupressão e como conseqüência a falência de múltiplos órgãos.



Nota da Editora: Continua na próxima edição.