“A Caruda”
Primeiramente vamos explicar o termo, pois ele traz consigo uma historinha.
Há uns quatro anos atrás, um legítimo filhote de “vira-lata” estacionou na porta da redação de nossa revista e só saiu de sua posição de estátua quando abrimos o portão, colocando-o para dentro. Inicialmente, a idéia era alimentá-lo para ele seguir viagem, mas foi ficando, ficando... e, acabou sendo eleito o mascote do escritório. Colocamos um nome original nele: Pluto.
Apesar de estar sempre bem alimentado, bastava alguém sentar para comer para ele ficar dando uma de “joão-sem-braço”, com aquela cara de vítima da sociedade, coitadinho mesmo, na esperança de ganhar um pedaço de algum alimento.
Dia destes, meu filho ficou muito p... da vida, pois ele (o Pluto) havia acabado de comer uma tigela imensa de arroz com carne moída e, ao ver o Rogério sentando para almoçar, junto com o pessoal da diagramação, deu início ao seu plano de safadeza, aguardando um petisquinho, bem ao lado dele. Meu filho, então disse: “Pluto meu querido, você é um carudo? É, você com certeza é um carudão, né meu querido!”. Todo mundo que estava almoçando, se acabou de tanto rir, pois ele colocou o rabo entre as pernas, disfarçou olhando em volta com cara de paisagem e saiu de fininho. Desde de então carudo ou caruda tornou-se sinônimo, para nós aqui da redação, de pessoa de caráter duvidoso, folgada, dissimulada, safada, que gosta de levar vantagem em tudo. Um bom exemplo de um “carudo” pós-graduado, é o camarada que há mais de um ano está vendendo assinaturas da Revista Personalité, em Santa Catarina, dizendo ser nosso representante. O carudo tem até crachá e recibo com o logotipo de nossa empresa. Felizmente, nossas colegas deste estado estão entrando em contato conosco e denunciando a ação do “carudão”. Vou até enviar um recadinho para ele (com a permissão de meus queridos leitores), pois sempre que sai uma revista nova ele volta a atacar: “Carudo, estou em seus calcanhares, e muito, muito próxima, de localizá-lo. Quando eu te achar, você irá ser carudo na cadeia, por estelionato, viu meu querido?”. Pessoal, continuem ligando, por favor. Não atendam ninguém em nosso nome, não temos representantes porta a porta. Não dêem seus cheques nem seu dinheiro, sem antes telefonar para nós. Outro dia, uma colega de Joinville disse que iria telefonar para nós, confirmando os dados dele, e quando ela voltou para recepção de sua clínica, o carudo tinha sumido...
No final de fevereiro tive o prazer de participar de um evento maravilhoso: A Fegobel – Feira Goiana de Beleza. Resolvi ir até Goiânia de ônibus leito, pois é uma estrada ótima e uma viagem muito agradável. Quando cheguei na rodoviária para embarcar, junto com minha equipe, notei que o ônibus que iríamos viajar era duplo, ou seja, a parte de cima é classe executiva e, embaixo, nove poltronas-leito. Nem em cima e nem embaixo lotou. Na parte do leito ficaram três poltronas vazias. Antes do ônibus sair o motorista se apresentou, deu algumas informações sobre a viagem, se despediu e trancou nossa porta (este setor tem porta, porque fica junto ao banheiro, que é comum à todos). O ônibus saiu da rodoviária e teve início nossa viagem. É comum neste momento, todo mundo ir se ajeitando, ficando mais à vontade para assistir o filme, até o sono chegar. Realmente um serviço Vip, com cobertor e travesseiro esterilizado, água geladinha e café fresquinho. Uma beleza! Paga-se o dobro da classe executiva, porém os benefícios compensam. Estava pensando neste custo-benefício, quando alguém bateu à nossa porta. Todos se entreolharam (as luzes ainda estavam acesas) e o passageiro, que estava em uma das poltronas da frente, resolveu abrir, pois como é um banheiro só para todo mundo, as pessoas, às vezes, se confundem ao descer a escada e abrem a primeira porta que encontram, no caso a nossa. Qual não foi nossa surpresa, quando a porta foi aberta: uma moça entrou, foi até o frigobar e pegou uma água, sentou-se ao lado do passageiro que havia aberto a porta, pegou um saco lacrado, que continha travesseiro e cobertor, abriu-o, se cobriu, bebeu a água, ajeitou o travesseiro e se preparou para “nanar”. O passageiro que abriu a porta, perguntou: “A sua passagem é de leito?”. Ao que ela respondeu: “Não, o que você tem a ver com isto. Te conheço?”. Ficamos, todos, passados. Olhei para minha amiga ao lado, e soube que ela estava pensando o mesmo que eu: “Caruda”. Não agüentei e falei: “Que caruda, hem minha querida? Já sei: quer ganhar o “oscar” de caruda do ano né, minha querida.” E caímos na risada, pois não havia outra coisa a fazer. Pedir para o motorista parar o ônibus, geraria um grande stress para todos os passageiros, pois os “carudos”, têm uma característica em comum: são folgados, não tem vergonha na cara e, principalmente, gostam de levar vantagem em tudo. A viagem seguiu e a cada parada, na hora que o fiscal ia conferir o ônibus antes de sua partida, a carudona subia para o executivo; quando as luzes se apagavam e o motorista ligava o ônibus, lá vinha nossa clandestina caruda. Na última parada acho que o cansaço a venceu e ela não acordou, porém na horinha que o fiscal estava entrando para a conferência dos passageiros, o anjo da guarda dos carudos a despertou, limpando a baba e esfregando os olhos, ela subiu e... dali dois minutos desceu de novo. Eu disse: “Olha a caruda aí, gente!”. Bem, toda a ação tem uma reação. Quando chegamos em Goiânia, desci rapidamente para pegar as bagagens. Que calor! De repente, senti algo gelado na cabeça. Não podia ser chuva, o sol estava de rachar. Virei instintivamente. Levei um grande susto. Quando olhei para trás, quem eu vejo? Ela mesma, a caruda, que me disse: “Isto é para você aprender a não se meter com o que não é da sua conta”. Gente, ela jogou um copo de água gelada na minha cabeça! Minha primeira reação foi descer este braço, que tem 24 anos de massagem, nas “fuças” dela, porém respirei fundo, passei as mãos nos cabelos e notei como eu estava “fresquinha”. Olhei para ela e disse: “Caruda, carudona preciso te agradecer, pois meu cabelo estava todo amassado da viagem, e eu estava sofrendo muito com o calor, esta águinha resolveu os dois problemas de uma só vez... e ... olha por causa de pessoas pobres de espírito e sem escrúpulo, como você, é que o nosso país não vai para frente.
Na verdade, não teria nada demais (apesar de não ser correto) ela ter viajado no setor leito. Estava vazio mesmo. Mas, ela nem sequer falou boa noite, demonstrando a arrogância própria dos ignorantes, bem tipo: “Olha só, paguei a metade do que vocês pagaram, seus otários, e irei numa boa no setor Vip. Vocês terão que me engolir...”. Se fosse o caso de um idoso, uma gestante, um portador de deficiência física, visual ou mental, alguma mãe com criança, tudo bem, não me afetaria e creio, que também seria tranqüilo para os demais. Quando me lembro do acontecido, me questiono se deveria ter sido mais humilde, mais tolerante. Mas uma coisa é certa: ela é caruda!





Aquele Abraço!!
Profa. Rosí Garcias
Revista Personalité
personalite@uol.com.br

Matéria da Revista Personalite número 39

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