Férias, Praia e...
Dor de Barriga!
Ano novo, vida nova, presentes de amigo secreto que nunca usaremos, que não servem e precisam ser trocados na loja, com aquelas funcionárias bem mal humoradas de tão cansadas que ainda estão da dura jornada de fim de ano, quilos a mais, consciência pesada e muitos planos e promessas que fazemos para nós mesmos na passagem do ano.
Segundo o horóscopo chinês, a partir de 8 de fevereiro a inteligência, o otimismo e a conduta ética, características do Galo, serão as chaves do sucesso e da realização.
Bem, mas ainda estamos meio letárgicos, tentando entrar no clima das férias. Por conta de tanto procurar pessoas neste início de ano e ouvir que estão de férias, lembrei-me de minhas primeiras férias.
Nunca havia tirado férias, mas ao completar 30 anos comecei a sentir alguns sintomas preocupantes, que foram detectados pelo meu acupunturista e encaminhados ao especialista do sistema digestório. Soube após um ultra-som que minha vesícula ostentava radiante algumas quinhentas pedras. Negava-me a operar. Voltei ao meu chinesinho das agulhas e pedi rotas alternativas. Ouvi um belo sermão sobre como eu era obstinada, brava, teimosa e dura, tanto para comigo como com as pessoas com quem convivia diariamente. Perfeccionista ao extremo, não aceitava erros, não importando se eram meus ou de outras pessoas. Fui endurecendo tanto que criei uma pedreira dentro de mim (veja o editorial desta edição na página 8).
Foi então que o Dr. Shen, vamos chamá-lo assim, aconselhou-me a tirar alguns dias de férias, já que a cirurgia era adiável, mas não inevitável. Segundo ele, este tempo seria bom para refletir, reorganizar minhas metas, rever conceitos, interiozar-me, enfim, ficar como uma besta olhando para o nada, pensava eu.
Não conhecia o Nordeste ainda, nesta época. Meu filho nunca tinha andado de avião, tinha uma assistente que tinha parentes em Maceió, nas Alagoas e estava louca para rever os seus. Tudo perfeito, vamos para Maceió, unindo o útil ao agradável.
Férias são para relaxar. Como se relaxa dentro de um avião? Ninguém merece, viu? Já contei para vocês que detesto aviões? Bem, adoro a rapidez, mas tenho muito, muito medo mesmo. Nas duas horas de vôo, as pedrinhas foram todas me massacrando, tamanho meu grau de stress provocado pelo medo daquela b.... cair.
Não caiu, ótimo. Cena na saída do desembarque, no aeroporto: Rita fez um dramalhão mexicano cheio de lágrimas, baba, risos e gritinhos com os pais, os 30 irmãos, os 45 tios e tias e mais uns 200 primos, além das madrinhas de tudo que vocês podem imaginar (não entendi até hoje o que é madrinha de “fogueira”...). O Rogério e eu ficamos de lado, bem quietinhos, assistindo a tudo e tentando entender como este povo é apegado à sua gente, às suas raízes e tradições. Brincadeiras à parte, é muito tocante. Amo de paixão o Nordeste e sua gente, tão hospitaleira e alegre.
Ela foi para casa dos pais e o Rogério e eu pegamos nosso transfer para o Hotel (tinha feito um pacotinho básico de turismo, tipo tudo incluído).
Lá chegando, não deu cinco minutos para meu filho estar de molho dentro da piscina. Bem pudera, ele contava com 10 anos na época e tudo era novidade. Eu só sentia uma enorme vontade de deitar e assistir televisão. Mas a ordem era: descansar, relaxar, usufruir, deleitar-se com a natureza e mais um monte de baboseira, que não tinham nenhum sentido para mim.
Primeiro fui organizar a bagagem, guardar as roupas, colocar aquelas dúzias de tubos dentro do banheiro (mania de esteticista) e.... tomar um banho. Que calor do inferno! O ar condicionado não dava conta do recado. Como o apartamento era de frente para o mar, eu tinha uma vista privilegiada. Fiquei ali atônita vendo aquele tanto de gente fritando ao sol do meio dia. A praia estava lotada e as pessoas pareciam felizes. Por que não conseguia me sentir assim também? Só pensava no tanto de gente que tive que cancelar para tirar estas férias. Na verdade, meu trabalho sempre foi minha vida. Amo minha profissão e nunca a enxerguei como um fardo difícil de ser carregado, ao contrário, as maiores alegrias de minha vida até hoje, são advindas da profissão que abracei há tantos anos atrás. Pensando bem, o grande problema era como eu me relacionava com os meus sentimentos e com as pessoas que me rodeavam e isto viagem nenhuma do mundo iria resolver. Você pode ir para o Japão, o que está te incomodando, a sua dor, a sua frustração, tudo vai junto com você.
Deu fome. Com algumas ameaças de morte consegui tirar o Rogério da piscina e fomos almoçar. Ele, muito sábio, atacou de ovo e batata frita com arroz e feijão. Eu não. Queria desfrutar: pedi uma bela muqueca de peixe. Esqueci o nome do peixe, mas era um nome bem exótico. Estava gostosa, tão gostosa que comi tudo, com bastante pimenta, água de coco e de sobremesa pudim de tapioca. Que delícia!
Fui deitar um pouquinho para acomodar aquele elefante que habitava meu abdômen. Quando acordei, já estava escurecendo. Primeiro ataque intestinal. Jesus, pensei que ia morrer, juro. Olhava para minha barriga e via ela se mexer, como se estivesse grávida e o bebê estivesse se contorcendo. A dor, que dor. A impressão que eu tinha era que tudo que tinha dentro de mim estava se dissolvendo e saindo para fora, de forma brutal e catastrófica. Que cheiro medonho! Parecia que tinha comido um abutre. Pensei: “se este cheiro está saindo de dentro de mim é porque eu já apodreci”. Após uma hora de luta, saí pálida do banheiro, meu filho olhou para mim e perguntou se dava para fechar a porta do banheiro. Que vergonha!
Bebi muita água e fui administrando as reminiscências daquela tragédia intestinal. Olhei de novo pela janela e vi que durante minha batalha havia se formado uma linda feira de artesanato na frente do hotel em que estava hospedada. Aí, gostei. Tomei outro banho, coloquei o uniforme de turista e lá fui eu andar na feirinha. Nas banquinhas que vendiam coisas de comer regionais, um pessoal super simpático, todos ofereciam uma amostra de suas iguarias. E vamos experimentando uma castanhinha aqui, um docinho de caju dali, mais um bocadinho de cocada de lá. Comprei umas lembrancinhas que sabia que ficariam encostadas nas casas de quem ganhasse, mas vá lá, o que vale é fazer umas comprinhas. Várias camisetas “Estive em Maceió”, “Lembrança de Maceió”, “Uma pessoa que te ama muito esteve em Maceió e lembrou-se de você”, “Xô, aperreio”, e por aí vai, até o momento do novo ataque. Juro que pensei que faria cocô nas calças, ou melhor, na bermuda. Gente, que coisa horrível! Nunca chegava meu andar. A desgrama que abria a porta, aqueles cartões magnéticos, não lia o registro e não liberava a fechadura. Se não fosse a camareira me salvar, o corredor do hotel ficaria, no mínimo, intransitável. Que paisagem linda: o vaso sanitário. Alguém de vocês já teve a sensação de estar fazendo xixi pelo orifício errado. Pois é...
Me sentia uma rainha, pois fiquei mais uma hora no trono. Depois disto não teve jeito liguei para a farmácia e pedi um kit de salvamento.
Depois de ir mais umas dez vezes ao banheiro, no decorrer da noite, finalmente consegui dormir. Acordei com o Rogério me sacudindo, pois ele queria ir para a praia e também passear de jangada e também mais não sei o quê... Pensei: isto são férias? Isto me fará bem? Estou pálida, cheia de olheiras e com um moleque que está ligado no 220, de bateria carregada. Não, realmente eu não combinava com aquilo tudo.
Depois de muito protetor para o corpo, para o rosto, para os lábios, hidratante para os cabelos, chapéu, óculos, chinelos, toalha de praia e mais um caminhão de coisas, lá fomos nós “felizes” para a praia. Não me atrevi a comer nada.
Mal me acomodei na cadeira, vieram me vender CDs piratas, mil lembrancinhas, caju, manga, camarão, lagosta, camisetas, shorts, redes, toalhas e colchas bordadas, tatuagem, cigana querendo ler a mão, velhinhas e velhinhos pedindo um auxílio. Ah, claro, estes foram marcantes: dois senhores que me deixaram roxa de vergonha, pois com suas violas começaram a cantar um repente feito especialmente para mim, com a praia inteira olhando e dando risada. Não, não, não. Ninguém merece. Detalhe: isto não acontece só em Maceió. Toda e qualquer praia movimentada torna-se um verdadeiro inferno para os turistas. A gente sabe que a coisa está difícil, mas um de cada vez, né? Resolvi aceitar um insistente convite para andar de jegue. Bichinho pequeno, sem perigo, anda devagarzinho. Vamos lá. Só não sabia que ele andava de “soquinho”. Nas primeiras fricções bumbum versus lombo do jegue iniciou-se aquela dor cortante, lacerante, que me reportou a todas as minhas idas ao banheiro. Estava em carne viva. Pedi para que o passeio fosse cancelado no meio da jornada. Voltei para o hotel andando de perna aberta. Um horror! Vamos passar pomada, creme e deitar de barriga para baixo. Durante dois dias não saí do apartamento.
Nova tentativa de ir à praia. Fui fazer o passeio de jangada em direção às piscinas flutuantes. Realmente muito lindo. Comecei a andar, sentir a água quentinha, arrisquei uma deitadinha, por certo que ardeu um pouquinho, pois o sal da água afetou uma região que não estava completamente sã, mas tudo bem. Afastei-me um pouco do grupo e fui andando a esmo até que pisei em algo. Este algo entrou no meu pé como se fossem mil agulhas. Urrei de dor. Quando me atrevi a olhar tinha uma coisa preta de mil pontas grudada na planta do pé. Depois fui apresentada ao distinto: era um ouriço. E para tirar aquele ser dali? O experiente jangadeiro tirou, porém ficaram vários espinhos dentro da sola do pé impedindo-me de caminhar. Quer dizer, era impossível por o pé no chão. Parecia um saci. Como se não bastassem as pedras da vesícula, agora um monte de espinhos no pé, que eu não tinha a menor idéia de como retirá-los. O resultado destas férias foi desastroso para mim, mas serviram para me ensinar de como somos falíveis, como somos “caipiras” fora de nosso habitat natural, de como precisamos ser humildes, sim, porque um desarranjo intestinal nos tira de nosso pedestal. Ensinou-me também a ser mais paciente comigo mesma e com os meus semelhantes.
Espero sinceramente que suas férias estejam sendo maravilhosas e que seu retorno às suas atividades, melhor ainda.
Um 2005 cheio de saúde para todos nós. Um minuto de pensamento positivo e solidário para com todos nossos irmãos de diversas partes do mundo, que neste momento possam estar sofrendo por uma catástrofe natural, uma guerra, enfim, qualquer tipo de dor física ou psicológica, pois poderia estar acontecendo conosco ou com alguém que amamos.


Aquele Abraço!!
Profa. Rosí Garcias
Revista Personalité
personalite@uol.com.br

Matéria da Revista Personalite número 38



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