O Cotovelo na Costela
 

O congestionamento de São Paulo não tem mais dia e nem hora. Durante a madrugada se anda um pouco mais, porém existem riscos de assaltos e de motoristas embriagados, que provocam acidentes. Logo, não existe outra opção a não ser enfrentar, principalmente se você tem viagem marcada, com passagem comprada. Embarque: Aeroporto Internacional Franco Montoro, que é o aeroporto de São Paulo, mas fica na cidade de Guarulhos. O táxi é o dobro do preço tanto na ida quanto na volta, porque o dito cujo aeroporto fica fora do perímetro não sei de quê, e, segundo os taxistas, eles “não podem voltar batendo lata”. Que lata! Os organizadores de eventos não pagam estas despesas. Saímos de nossos lares nos finais de semana, deixando família, descanso, lazer, para proferir palestras nos congressos e fica por isto mesmo. Gozado é que alguns oferecem almoço, mas jantar, nunca. Palestrante não janta? É uma forma de forçar uma dieta? Outros nem almoço. O negócio é conformar-se com o café da manhã, que está incluso na diária do hotel, ou pagar de seu bolso ou não comer. Aí, por conta de tarifas mais econômicas te colocam em um voo, na sexta-feira, às 20 horas (que tragédia!!!). Depois de enfrentar todo o caos do trânsito de São Paulo para chegar a tempo, pagar o táxi dobrado, ajeitar sua bagagem no carrinho: abrem-se as portas automaticamente e, de repente, dá uma vontade imensa de voltar correndo para casa. É a visão do purgatório. Fila para todo lado, carrinho que passa em cima de seus pés, centenas de pares de olhos perdidos, indagando para onde vou, onde estou. Atendentes com aquele sorriso colado na cara, mas querendo que você se dane e pedindo aos céus, para que ninguém se aproxime para perguntar nada, pois nem eles sabem de nada. Parecem que estão anestesiados. Depois de trabalhar a semana inteira raspo o resto de coragem e paciência e, como uma predadora, abordo a criatura. Não dou tempo de ela perguntar nada e ataco: “Senhorita, meu voo é número tal, para tal lugar, tal hora, por favor, qual das duzentas filas é a minha? Resposta: “A senhora já fez o check-in eletrônico?” Fez o quê? As malas e as bolsas já levaram algumas trombadas e começam a escorregar e a cair. “É muito fácil. Dirija-se a um daqueles terminais toque a tela e siga as orientações. Depois disto, com o ticket de embarque em mãos a senhora retorna e entra na fila (imensa) para despachar as bagagens (muitas)”. Muito simples para quem sabe. Dou uma olhada na direção apontada pela simpática e tenho de novo aquela vontadezinha de fugir para casa. Filas em frente de cada maquininha. Cada pessoa com seus carrinhos lotados aguardam a vez de “tocar na telinha”. Pensei: “isto não vai dar certo...”. Já sei! Direi  que sou analfabeta. Desisti, ao lembrar-me que tinha um livro em mãos. Fui para o calvário. Aí, arreganhei a bolsa para pegar o cartão de milhas, o papel com o localizador, a carteira identidade e deixei o carrinho, atrás de mim com a bolsa aberta, colocando-me frente a frente com a traquitana eletrônica. Olhei para à direita e para à esquerda e o pessoal estava mandando brasa, então, eu conseguirei também, pensei, encorajando-me. Que nada! Coloquei um dedo, dois dedos, a mão inteira e a mensagem era a mesma: “Bem vindo ao check-in eletrônico da ...... Você é muito importante par nós (Ô!). Toque a tela e inicie já sua viagem! Que maravilha! Viagem para o inferno dos ignorantes que não conseguem fazer esta bosta funcionar. A bolsa aberta e o carrinho de bagagens já faziam parte do passado. A briga era comigo e com ela, a máquina. E a fila dos azarados, aumentando atrás de mim. E o tempo passando. Não aparecia um filho de Deus para me dar uma luz. Lembrando-me bem da cena agora, quem via a cena devia pensar que eu estava estuprando a máquina. Meu corpo inteiro se entortava para um lado e para o outro, tentando seguir as instruções facílimas! Número do CPF. Número incorreto. Número do localizador. Tente de novo, localizador inválido. Como inválido? Fazia dez graus, mas eu suava como se a temperatura estivesse na marca de quarenta graus. O RG, o cartão, a papelada do voo estava tudo maçarocado, úmido do suor de minhas mãos. Uma meleca. Algo me chamou a atenção no terminal ao lado. Um garoto de uns dez anos implorava para a mãe para ele fazer os procedimentos. Olhei para ele e falei: “Olha só, você sabe mexer neste troço?” O moleque, orgulhosamente balançou a cabeça que sim. Implorei: “Faz para mim?” Não demorou dois minutos e a máquina cuspiu uma tira de papel com tudo direitinho, até as milhas! Agradeci e saí correndo. Para minha surpresa e desgosto descobri, ao entrar na aeronave, que o doce pré-adolescente marcou meu assento na poltrona do meio, em um voo, cuja duração aproximada era de três horas. Na janela e no corredor dois homens bem grandes. Fechei as pernas e cruzei os braços. Coloquei meu livro bem apertadinho na frente do rosto e tentei ler. Os manos iniciaram o balé das cabeças tontas de sono. Para um lado, para o outro, voltinha, para baixo, capengando em todas as direções e acordando, aos solavancos. Mãos esfregando a cara, alguns pigarros e o ritual reiniciava. As pernas e os braços de ambos foram abrindo, conforme suas almas dirigiam-se aos braços de Morfeu. Fui esquivando-me daqui e dali, até o cotovelo do cara do corredor acomodar-se em minha costela. Ele achou a posição! Sabe aquele jeitinho tão procurado para se ajeitar. A sequência da ópera foi o ronco trompete, sabe aquele que é na ida e na volta, sem descanso. Pois é. Empurrava, mas ele, o cotovelo carudo, voltava à minha confortável costela. Peguei aquele cartão de instruções para o caso de emergências, que vamos falar sério, não será lembrado caso ocorra (Nossa Senhora que me valha) uma emergência e fiz um canudo. Cada vez que ele escorregava para meu lado, eu desferia uma cacetada na cabeça do dorminhoco. Parecia que funcionava como um carinho. Peguei, então, a revista. O passageiro da janela começou a vir para meu lado também. Êpa, então vamos quebrar o pau! Era uma revistada de um lado e uma revistada do outro. Vão roncar assim, lá na casa do chapéu. O cidadão da janela até assoviava no retorno. Bem feito, quem mandou ser burra e não saber mexer naquela porcaria de máquina. Comecei a dar pernadas também. Gente, os manos não acordavam, que loucura! O do corredor começou a babar. Passava o antebraço na boca e tive que começar a me desviar das cotoveladas. O voo estava lotado. Não tinha escapatória. Desenvolvi um método de defesa dos dois lados do corpo. Valia tudo, cabeçada, pernada, revistada, soltar a mesinha dos caras, abrir bem os braços, empurrando os dois. O do corredor quase caiu com um safanão. Bem, a recompensa veio em forma de carinhos e mimos que recebi, quando cheguei a cada cidade, em cada congresso, em cada feira, no último trimestre. Minha costela lembrou-se daquele cotovelo uns dois dias, mas não faz mal. Valeu à pena estar com todas vocês, colegas esteticistas, do Norte do Paraná, do Rio de Janeiro, de Belém do Pará, de Caruaru e Recife - PE, de Vitória do Espírito Santo, de Campo Grande e Dourados - MS, além dos eventos de São Paulo, Santo André e Campinas. Muitos empresários boicotam a revista, não anunciando, na esperança de que eu desista. Pois que esperem sentados! Eu tenho o tesouro que eles mais cobiçam: vocês. Obrigada por sua assinatura, ela me honra e ajuda a continuar este trabalho, que é transparente e responsável, que é totalmente dedicado a você. Cuidado, meninas e meninos, os oportunistas estão mais à solta, do que nunca. Lobos e lobas à espreita de “presas” incautas. Veja bem, aonde você investe o resultado do seu trabalho, que é árduo. Desconfiem de “milagres” e soluções muito fáceis, pois isto não existe. O conhecimento e a experiência são seus maiores e melhores investimentos. Cuidem-se!    

 


Afetuosamente,
Profa. Rosí Garcias


Matéria da Revista Personalite número 62

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