O Homem que Depilava...
 

Nas primeiras páginas desta edição, em meu editorial, abordei um tema reflexivo sobre os ciclos da vida. Pobres e ricos, qualquer um, independentemente de sua formação sócio, cultural e econômica passa por tempos melhores e piores. No popular: tempos de “vacas gordas” e de “vacas magras”, em todos os sentidos. A vaca magra de uma pessoa rica pode ser uma doença em família, por exemplo. Passei em determinada fase de minha vida profissional um ciclo de aprendizado, que não tinha nem a vaca... Era aquela espera interminável, desejando desesperadamente que o telefone tocasse, e alguém marcasse um horário para receber meus cuidados profissionais de esteticista. Tinha uma recepcionista que era um terror. Menininha nova, lá com seus 14, 15 anos, mascando chiclete de boca aberta e lendo um gibi ou uma revista de fofoca o dia inteiro, esperando como eu – ou não – que o telefone tocasse e que ela justificasse seu pequeno salário, que, naquele tempo era o que eu podia pagar. Diante disto, não podia exigir demais dela, pois, além de tudo era seu primeiro emprego e não tinha experiência. Eu rezava. É verdade, rezava muito, como se Deus já não soubesse de minhas necessidades, antes de mim mesma. O problema é aquele de sempre: quanto mais você precisa, mais ansiedade é gerada e suas energias de desânimo afugentam a clientela, porque sua fé fica abalada. Estava em minha sala de terço e livrinho de pensamento positivo em mãos, quando o telefone toca. Uau! Minhas preces surtiam seus primeiros efeitos. Um indivíduo do sexo masculino perguntava à minha “secretária” se atendíamos homens. Ela disse que sim. “Para depilação também?” Questionou. Ela sem consultar-me informou que sim, prestávamos aquele serviço também. Agendou o sujeito para as 19 horas. Eram 10 horas... Marcou na agenda costas, barba e peito, que era o que, normalmente os homens depilavam. Já comentei nesta seção que depilação nunca foi meu forte. A cada “ai” da cliente eu levava um susto. Provocar dor nos outros, mesmo que seja de sua vontade, pois vislumbra o resultado final, nunca me agradou. Mas eram tempos sem vaca, não podia me dar ao luxo de rejeitar um serviço. Meu curso de depilação foi o básico. Acho que precisamos saber fazer de tudo dentro de nossa área de atuação. Mesmo que não façamos ou façamos pouco, precisamos aprender a fazer e a fazer bem feito. Muito bem, às 17h30 minha auxiliar foi embora, pois estudava à noite. Teria eu mesma que fazer as honras desde abrir a porta até o cafezinho, prestação de serviço e recebimento do pagamento. Às 18h45 um carro muito chique para na porta da estética. De lá saí um homem bem apessoado, bem vestido, um executivo. Muito educado cumprimentou-me, falou sobre amenidades climáticas, enquanto tomava uma xícara de chá, quando então, o introduzi a sala de atendimento, que estava arrumada há horas. Verifiquei a temperatura da cera que seria utilizada para pêlos mais profundos, e a cera fria para pêlos mais finos e curtos, acessórios ok, descartáveis ok, maca ok, tudo ok. Coloquei uma música instrumental em volume baixo, e mostrei ao cavalheiro onde poderia acomodar seu paletó e sua camisa, bem como a caixinha para acomodar relógio, chave de carro, entre outras miudezas. Fiz perguntas básicas para preencher o cadastro, outras sobre sua saúde e saí para que ele se acomodasse com privacidade. Antes de entrar na sala, como era de praxe, dei três batidinhas na porta, informando sobre minha entrada. Vinha com a ficha do sujeito e uma caneta em mãos, onde havia um desenho para delimitar as áreas a serem depiladas. Ah, estava com minha lupa de pala para enxergar bem e fazer um bom trabalho. Entrei e encostei a porta, olhando para a ficha. Quando ergui o olhar: surpresa! Dei uma olhada de cima para baixo e vi o cliente de camisa, gravata, com as mãos apoiadas em minha maca, uma revista nas mãos, e aonde terminava a camisa, via-se a ponta do pinto à mostra. Ele ergueu os olhos da revista, abriu um sorriso e perguntou se podíamos começar. Minha vontade era de começar a correr! Mas, sobrepujando meu preconceito, quanto à anatomia masculina, engolindo minha raiva da recepcionista que não fez o atendimento telefônico correto, no que se referiam as áreas a serem depiladas e, principalmente, lembrando-me que meu curso básico não incluía certas regiões masculinas, pensei em um plano B: desmaiar. Plano C: dizer a verdade e desculpar-me, implorando que ele fosse embora. Plano D: enfrentar e ver no que ia dar. Afinal, pêlos são pêlos, uns mais profundos, outros mais rasos, uns mais finos, outros mais grossos, mas ao final é tudo pêlo. Arhg! Reunindo forças que não tinha perguntei com toda a segurança que minha voz podia transmitir: “Creio que minha auxiliar equivocou-se ao lhe atender e então? O que vamos depilar”? “A virilha”, respondeu-me, complementando: “Na verdade quero depilar toda a parte frontal”. Perguntei-me interiormente o que isto significava na prática. Muito bem, deite-se, falei. Como estava de lupa aquilo parecia muito pior do que realmente era. Imaginei que precisaria de uma tesoura de jardineiro, uma retro-escavadeira, dentre outros maquinários. Era muito pêlo, gente! Um matagal. Peguei na estufa a maior tesoura de que dispunha e comecei a primeira parte. Só que tinha um pinto no meio atrapalhando meu trabalho. Pedi para ele desobstruir a região lateral. Desobstruir foi demais. Que ridículo! Com o dedo indicador ele empurrou o membro para o lado contrário, depois para o outro lado, para cima e para baixo. Tinha vontade de jogar a lata de cera quente inteira e puxar tudo de uma vez só, inclusive o pinto. Peguei minha espátula e comecei. Suava como uma chaleira. Pior foi a aproximação para verificar pêlos teimosos que necessitavam de pinça. Quando terminei a região genital, ele disse: “as nádegas também”. Bom uma bunda nesta altura do campeonato era moleza. Passei a loção pós-depilatória e pedi que ele virasse de bruços. Ele comentou que gostava das nádegas bem lisinhas. Que fofo! Senhor terminou (que bundão). Ele virou a cabeça em minha direção, e pediu: “Dá para depilar o ânus? Eu ajudo. Seguro um lado, enquanto a senhora faz o outro. É rápido.” Quando ele abriu a nádega (eu estava de lupa, lembram-se?) pensei “que cusão é este?”. Coloquei as luvas descartáveis e o fel da vingança começava nascer dentro do meu ser. Preparei uma generosa espátula de cera bem quente (estes pêlos são muito profundos) e joguei. É joguei mesmo, puxando em alavanca em seguida. Doeu. Ele soltou a nádega e o resquício de cera fez com que as duas bandas grudassem. Dá-lhe talco e óleo para desprender. Mas, faltava o outro lado, né? Limpa talco, limpa óleo. Segurar, apontar e fogo! Puxar, passar gel e acabou. Ao tirar a lupa percebi que nada era tão grande assim e que tudo estava adormecido. Não havia má intenção do cliente. Ele só queria ficar lisinho. As aparências enganam... Aquele terno Armani, aquela gravata Pierre Cardin, sapatos de couro alemão. Bem, sem julgamentos. Recebi até mais do que pretendia. Antes de sair ele agradeceu e disse: “Ah, queria deixar agendado para o mês que vem”. Respondi: “senhor, eu lamento, mas estou em minha última semana de trabalho aqui. Vou mudar de área de trabalho”. É claro que foi só a raiva do momento, a vantagem é que agora eu tinha uma “vaquinha magra”. Este texto foi baseado em uma história real enviada pela nossa grande amiga Irani, do bairro do Paraíso, em São Paulo, onde continua atendendo na Estética Irani Costa.

 

 



Afetuosamente,
Profa. Rosí Garcias


Matéria da Revista Personalite número 59

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