Sobre Aviões
 

Pode ser que muitos leitores nunca tenham utilizado o avião como meio de transporte. Informo que não estão perdendo nada. Para aqueles que viajam esporádica ou habitualmente a nossa narrativa será mais compreensível. Sempre viajo no assento do corredor, na penúltima fileira do avião. Motivo: fica próximo do banheiro e da tripulação (comissários de bordo e chefe de equipe). Se alguma coisa está prestes a acontecer eles são os primeiros a saber, desta forma fico bem informada. Quando um  organizador de Congresso convida-me a proferir uma palestra, já tenho um e-mail pronto, solicitando a marcação deste assento, o aeroporto de Guarulhos-SP, para decolagem e aterrissagem, pois este aeroporto fica mais próximo de minha casa e tem a pista mais longa (medo, medo, medo...). Informo também que meu nome nos documentos é Roseli Garcia, já que não embarcarei com o nome que utilizo profissionalmente, Rosí Garcias. São Paulo é uma cidade que amanhece. Muitas vezes com muita neblina e, com isto, o aeroporto fecha. Então, já peço a ida e a volta em horário de almoço, fazendo com que o risco das intercorrências metereológicas, não seja motivo de horas aguardando no aeroporto. Mas nem sempre as coisas acontecem desta maneira. Dia destes, mesmo com todas estas precauções, uma agência de turismo que assessorava o evento, emitiu minha passagem por Congonhas, na segunda fileira da aeronave, às 7 horas da manhã (para ir e para vir, que delícia!). Tentei em vão alterar pelo menos meu nome, sem sucesso todavia. Após brigar muito no check-in, mostrando que eu era eu, mostrando a revista, o folder do evento, chamando o supervisor, finalmente consegui embarcar. Vôo lotado. No meio de tanta correria, não observei o número do assento. Estava no corredor da segunda fileira. Tragédia! Por quê? Bem, as primeiras duas fileiras de um vôo, à direita e à esquerda, são reservadas para gestantes, adultos acompanhados de crianças (de todas as idades), idosos, portadores de deficiência física ou dificuldade de locomoção, entre outros. A gestante dorme ou vomita, dependendo do tempo de gravidez. A criança até um ano de idade chora desesperadamente, devido à altitude. São duas sinfonias de choro: uma na subida e outra na descida. Crianças maiores são incontroláveis. Parece que hoje em dia os pais são reféns de seus filhos. Eles não conseguem controlá-los, tão pouco ter suas ordens obedecidas. Neste vôo tinha um “anjinho” destes bem atrás de mim. Ele puxou meu cabelo, meu óculos, chutou a poltrona mil vezes, e, depois de uma olhada feia que dei a ele, a mãe solicitou gentilmente que ele ficasse quieto. A coitada (?) levou uma bordoada pelo pedido e calou-se. Tínhamos dois bebês a bordo. Um casal de velhinhos que as idades deviam somar dois séculos, sendo que o vovô trazia um lenço de pano todo amarfanhado em seu bolso, e, a cada cinco minutos, quando a tosse atacava, ele fazia do mesmo. Vou poupá-los dos detalhes da utilização deste lenço. A velhinha mostrava um olhar muito triste e desanimado, típico de quem agüentou um “porco” a vida inteira. Não sou cruel, não! Limpeza nada tem a ver com classe social ou cultural. Bem, para estar em Congonhas às 6 horas da manhã levantei-me às 4 e meia, logo meu estômago pedia que descesse algo. Ele não sabe que teria só duas bolachas e uma barrinha de cereal, juntamente com um suquinho, entregue pela comissária com cara de bosta. Quando o avião decolou e estabilizou a altura, uma moça de uns 25 anos, que se sentava ao meu lado, espremida entre a minha pessoa e um gordão na janela, tentou iniciar uma conversa comigo. Com um sorriso amarelo tentei ter paciência e escutá-la, mas a conversa dela exigia minha participação, pois era recheada de perguntas. Quando falei que trabalhava com estética, então a coisa ficou feia para meu lado. Ela não calava a boca. Falou-me de toda sua celulite, suas estrias, seu estômago alto, sua bunda caída, suas rugas em volta dos olhos, apesar de, sinceramente, não ter visto nenhuma. Imagine se eu fosse um médico?!?! O vôo tinha duração de 90 minutos. Odiei a agência de viagens, que ignorou meus pedidos. Quando os procedimentos de pouso iniciaram-se agradeci muito aos céus pelo suplício estar chegando ao fim. Quando o comandante fala: - “Tripulação preparar para o pouso”. São mais ou menos de doze a quinze minutos até o avião pousar. A moça a meu lado calou-se repentinamente. Agradeci mentalmente por isto. As comissárias fizeram seus procedimentos e sentaram-se em seus banquinhos. De repente, a moça do lado, tocou meu braço. Estava branca feito cera. A baba já era visível. Em vão chamei a aeromoça, pois ela ignorou-me, talvez sabendo o que viria a seguir. Maldita pergunta: você está se sentindo mal? Sem resposta. Quase por reflexo peguei o saquinho que as pessoas utilizam para vomitar e acomodei próximo da boca dela. O rosto de todo mundo virou para o lado oposto, inclusive das comissárias. E, a pobre moça começou a chamar o Juca. Minha posição não ajudava e eu não podia soltar o cinto de segurança (estávamos descendo). Ela não parava de vomitar. O saco já estava quase cheio (e pesado). Nem quero comentar sobre o cheiro. O negócio não parava. Acho que à noite ela foi a uma churrascaria. Não sei de onde saía tanta coisa! Os ingredientes eram variados. Procurei instintivamente com o olhar outro saquinho. Um só não ia dar. Mas o que fazer com o que estava cheio? Bem, confiei no inmetro puxei os cordões do saco e coloquei-o em meu braço, acomodando o outro na boca da moça. E vamos vomitar. O cheiro impregnou o avião. As aeromoças? Olhavam o céu azul... Tem gente que ao ver alguém vomitar, acaba vomitando também. Foi o que aconteceu com o senhor que estava no corredor da outra fileira. Pensei: nem olhe para mim, já tenho minha cota de vômito aqui. Por sorte, tinha alguns guardanapos no bolsão à minha frente e fui limpando os resíduos de baba e alimentos da boca do meu pesadelo. Gente, ela encheu três saquinhos!!! Imaginem na hora que o avião pousou. Precisei ser uma equilibrista para aquilo tudo não cair em cima de mim, no chão, e quem sabe, naquele pequeno delinqüente da poltrona de trás (rsrsrsrsrs). Quando o avião parou completamente chamei a comissária e entreguei-lhe os presentinhos, perguntando por que ela não atendeu aos meus chamados. Ela alegou que não podia levantar-se na hora do pouso. Cadela! Tinha uma besta para fazer o serviço dela, né? Bem, tudo bem, uma boa ação logo de manhã, firmeza. A moça me agradeceu muito e disse-me que isso sempre acontecia, quando o avião perdia altitude. Perguntei-lhe porque ela não tomava um remédio. Ela me disse que não gostava de tomar remédios sem orientação médica. Louvável. Mas gostar de vomitar nos outros ela gosta, né? Tem muita gente folgada no mundo, sabe? E a culpa é de quem é tonto. Para cada folgado existe um tonto de plantão. Depois disto fiquei mais esperta agora sempre carrego um saco de lixo dentro da bolsa.  

 

 



Afetuosamente,
Profa. Rosí Garcias


Matéria da Revista Personalite número 58

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