Na Calada da Noite |
Agradeço as centenas de pessoas, que iniciam esa revista pelo fim, para ler primeiro esta coluna. Tenho relatos de esteticistas, cujos maridos confiscam a revista e, só depois de ler esta seção e o editorial, liberam-na a quem de direito. Muita gente me pergunta se são histórias verdadeiras. São! E, por uma questão de elegância, alguns relatos são privados de detalhes mais picantes. Guardei para este encontro, onde completo dez anos à frente da editoria da Revista Personalité, uma situação bizarra. Acompanhem. Não é segredo que tenho horror de viajar de avião – já comentei isto várias vezes aqui – só que eu assumo meu medo. Bilhões de pessoas no mundo também têm, mas, a maioria disfarça, ficando com os olhos fixos na mesma página da revista o vôo inteiro. Eu tenho medo mesmo. No ano passado todo o país chorou, juntamente com os parentes e amigos, a tragédia que vitimou dezenas de pessoas no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Fatalidade? Destino? Tinha que ser? Sei lá... Só sei que quando um troço deste cai, dificilmente sobra alguém para contar como foi. Depois desta tragédia não viajei mais de avião. Cancelei os compromissos mais distantes e cumpri os mais próximos... de ônibus. É de ônibus! E para minha surpresa, notei que algumas empresas melhoraram bastante sua frota e o seu atendimento. Estou retornando do norte do Paraná, precisamente de Londrina. Podre de cansada, é claro. Uma noite para ir, dois dias para trabalhar e mais uma noite para voltar. Minha equipe somava quatro pessoas, contando comigo. Meu irmão, o Ney, comentou que eu iria adorar a viagem, já que se tratava de um ônibus fenomenal. Era um leito-cama!?!? Não foi possível adquirir poltronas próximas para os quatro. O ônibus tinha dois andares com três fileiras de poltronas em cada andar. Escolhi a primeira poltrona-cama do andar superior. Ao meu lado ficavam as duas únicas poltronas juntas, lado a lado. Quando vi aquele vidro enorme (apesar da cortina que o escondia), imaginei, se algo acontecesse, seria a primeira a “entrar pelo cano”. Mas cansada como estava a morte nem parecia tão ruim assim. Do meu pessoal, dois ficaram no andar de baixo, um, mais ou menos no meio do andar superior e, eu, como já disse no primeiro assento, aguardando quem seriam os “azarados” que viajariam no único assento duplo. Logo o casal chegou. Que azarados, que nada. Dei início à investigação das minhas acomodações. Bacana! A poltrona virava uma cama mesmo. Senti um prazer antecipado. Iria dormir muitooooo! Tinha lençol, travesseiro novinho (com fronha) e cobertor de gente grande. É, por que tem uns, que se você cobre os pés a parte de cima fica descoberta e vice versa, dando a impressão de ser cobertor para anões. Este não; era bem grandão, cheiroso e sem fiapos para coçar o nariz. Deram-me no embarque uma caixinha cheia de guloseimas e um suco. Não quis nada. Queria loucamente dormir. Pelos cochichos, deu para notar que o casal a meu lado não era brasileiro. A moça ficou no corredor e o moço na janelinha. Pareceu-me que se tratava de jovens que fazem turismo descompromissado. Mochilão nas costas e cada dia ou semana um destino diferente, além de uma grande paixão. Após acomodarem-se a moça virou a bunda para o meu lado e ficou face a face com o amado. O ônibus ainda estava em processo de embarque com as luzes acesas, portanto foi impossível não notar aquilo que deveria ser uma calcinha, mas era mais parecido com uma peça de tortura. Não é por que sou gorda, não. Sou obrigada pela minha profissão a ter senso estético, portanto vamos combinar: jeans de cintura baixa, só se o corpo estiver bem bacana, senão sobra coisa para todo lado. Na posição em que a muchacha estava a calça abaixou e o estrupício que estava por baixo subiu. A forma era de um “T”. O tecido muito fininho tinha em si costurado uma infinidade de pedrarias coloridas. A parte frontal desta “calcinha” era inimaginável, pelo menos para mim. Estou velha? Não, não estou. Aquilo devia doer pra caramba! Das duas uma: ou ela gostava da dor, ou já nem doía mais. Pensem naquilo roçando na região lombo sacra, passando pelo ânus em direção..., sabe né? Não achei um traje confortável para uma viagem. Mas, afinal, não tinha nada com isto. Fechei os olhos, inspirei e expirei várias vezes e senti que começava a ir para os braços de Morfeu (deus do sono). Luzes apagadas. Ônibus em movimento. Que beleza! Comecei a sonhar com lesmas, dançando lambada, dentro de um pote de gel. Acordei sobressaltada. Olhei para o lado que vinha àqueles sons e, através dos rasgos de claridade intermitentes vindos do exterior, porém prejudicados pela velocidade do ônibus, notei que algo ocorria com o casal ao lado. Apurei a visão e na seqüência fechei os olhos. Ou eu estava delirando ou eles estavam transando. Loucamente! Diz que tem gente que gosta de fazer coisinha em público, quem sou eu para julgar. Mas, o negócio só estava começando e ficou “caliente” muito rápido. Homem sabe como é, fica só no oh, sim, não, oh de novo, aí, vai, isto... Aqui em nossa história, era assim: “Oh, siiiiii, noooo, mas arriba, ah! Si, mas abajo, por Dios, ai, ui...”. Mulheres verbalizam mais suas emoções. A companheira do rapazito era bem mais contundente. Montou em cima do moço e aí vai, o que consegui entender: ”Mata-me; perro boludo (perro eu sei que é cachorro, boludo...?); Mas que pistola tenes, hã?; És um trinchador, ahã?; Tengo voluntad de morir!”. Bom, ela cavalgava bem. Só não sei se ela queria matar ou morrer, ou os dois. Ela soltou duas bolas de basquete da blusa minúscula. Ali devia ter um litro de silicone em cada peito. O moço quase se afogou. “Mama, chupa su vaca; si, si, sou uma perra, una putona, soy tuja, quiero mas, bandido, hummmmm...”. Ah! Acabei cansando daquele monólogo sexual e dormi. Mas, senhoras e senhores, este negócio durou muito tempo. Perdi mais da metade da noite. Por mais que não quisesse prestar atenção, era impossível. Alguns passageiros que estavam na parte posterior à cena, degustaram um filme pornô gratuito. Já era dia, quando fui sacudida e quase derrubada do meu leito-cama. A doidona estava gritando comigo!!! “Por que no te callas?” Ahã? Fiquei paralisada e assustada. O que a maluca queria? Demorei em concatenar as idéias: quem sou, onde estou, o que acontece? Ela esbravejou, apesar do namorado tentar puxá-la a todo custo, ela prosseguiu urrando: “- Roncaste la noche toda. No puede ser. Necesito acostarme um poco. Roncaste como una puerca”. Bom, aí foi demais, né? Baixou a super sincera, já com olhos bem abertos e ciente dos acontecimentos. Falei: - Sua vaca, sabe o que é vaca, não é mesmo? Você “trepou” metade da noite, logo, nem que eu quisesse conseguiria dormir, que dirá roncar. Não vou mandar você se f...., porque isto você já fez bastante. Nem tomar naquele lugar, porque este monte de pedras já fez o serviço, na hora do rala e rola. Então, porque no te callas? |
Matéria da Revista Personalite número 56 Voltar |