A Viagem |
Enquanto escrevo este artigo vem a lembrança de minha querida amiga, Prof.a Kátia Nunes, que está em Lisboa, Portugal, procedendo à uma série de palestras e cursos. Ela ficará lá, mais ou menos um mês. De saída consta de sua agenda uma conferência, no maior congresso de estética de Portugal, promovido por uma revista especializada em estética. Nossos sinceros cumprimentos. Na seqüência, dará cursos em escolas e SPAs de nove cidades portuguesas, voltando em novembro para o Brasil. É motivo de orgulho para nós, esteticistas brasileiras, sabermos que temos o que ensinar, apesar de ter em mente que sempre precisamos aprender mais e mais. Em nossa área de atividade as mudanças são praticamente diárias! Não podemos parar de estudar nunca, já que a oferta de reciclagem, por diversos meios é enorme em nosso país. Mas não foi sempre assim. Como já comentei nesta coluna algumas vezes, há alguns anos atrás muitos anos não havia tantas oportunidades de aprendizado, como existe hoje. Eu e mais um grupo de colegas sempre estávamos indo e vindo de Buenos Aires, Argentina, que na época, era referência em aprimoramento teórico e prático nos protocolos corporais e faciais. Após alguns anos, tive a oportunidade de ser convidada pela Prof.a e querida amiga Cristina Moro, para dar um curso de massagem em sua escola, um centro de estudos e investigações científicas em aromaterapia, cromoterapia e várias outras terapias complementares, incluindo as diferentes técnicas de massagem manual neste rol. Claro que fiquei apavorada, principalmente pelas diferenças de idioma, que parecem não existir, mas existem, e são constrangedoras. Depois dá para rir muito, mas na hora é de chorar! Lá fui eu para Buenos Aires. No primeiro dia, no primeiro contato, foi tudo maravilhoso! Cristina Moro fez um marketing formidável sobre a professora (eu) e o curso. Tinha vinte pares de olhos (e ouvidos) direcionados à minha pessoa. Pensei, “sou uma maluca, mesmo”. Seguindo os preceitos da escola, era tudo muito calmo, se falava muito baixo, não havia ventilação artificial, o que significa que eu sentia gotas grossas de suor, escorrendo pelo meu corpo como uma cachoeira quente. O silêncio era mortal. Cristina Moro fala português, meio enrolado, mas fala, e disse ao meu ouvido: - “Boa sorte, te deixo com as meninas agora”. E a porta se fechou. Um pigarro, dois pigarros e, olhando nos olhos de cada uma, disse: “Buenos dias”! Em uníssono responderam: Buenos dias!!!!! Outra se adiantou: - Professora podemos empeçar ahora hacer masajes? Eu: - Ahã!?! Quer dizer, sim, vamos fazer massagem. Outra aluna: “Senhora, las camillas estan listas”. Sei... Outra aluna: “Quién desnudase?”. Outra: Cual aceites, o cremas? Outra mais: “La técnica es dos tobijos para arriba ou de la cara para abajo?”. As forças divinas me invadiram e me deram a certeza de que, se eu não tomasse pulso da situação naquele momento, com certeza não seria respeitada, pois tratava-se de um grupo exigente, que não queria perder tempo e, principalmente, de forma consciente ou não, testavam meus nervos. Ergui minha cabeça, respirei fundo e disse: - Meninas, falarei, hablarei, ok? Devagar, com espaço, beleza? Não domino totalmente o idioma de vocês e nem vocês o meu, portanto, per lo tanto, mejor? Vamos usar a linguagem do tato, de nuestras manos. Assim está bem? Silêncio total. Medo mortal. Professora, falou seriamente uma jovem aluna, “nosostras tenemos ganas de sacar los conecimientos tujos, hasta la última gota de tu sangre”. Eu pensei vai sacar o sangue de outra vítima, que conversa torta. Olhei seriamente para ela e disse: “Darei o melhor de mim nestes dias que passaremos juntas.” Não sei se entenderam, mas houve um burburinho, - “Si, bueno, asi mejor, esta nerviosa?”. Para minha sorte havia uma senhora, que se aproximou discretamente e me confidenciou que era casada com um brasileiro e estava à minha disposição para ajudar no que fosse necessário. Me informou que na outra sala estavam as macas (as tais camillas) e as alunas queriam saber quem seria modelo e quem trabalharia na primeira etapa, para mudar depois. Se utilizaríamos óleo ou creme e qual o sentido da massagem: dos pés para a cabeça ou do rosto para os pés. Ok! Santa Clara, clareou. Chamei todas para a dita sala, localizei os carrinhos muito bem equipados e fiz uma separação de quem tirava a roupa e quem iniciava fazendo a massagem. Acho que estas coisas são iguais em qualquer país: “eu não me depilei”, “eu estou muito gorda”, “eu não gosto de receber”, “prefiro fazer para aprender mais”. Senhoras, basta! Ninguém aprende a ser um bom profissional de massagem se não sentir o que seu cliente sentirá. Compreendem? Ninguém está aqui para mirar os “defeitos” de suas colegas, portanto, el tiempo esta passando, vamos? Finalmente, começamos. Fizemos a higienização das nossas mãos e dos pés das alunas deitadas. O tempo foi passando, eu fui relaxando, as primeiras risadas começaram, principalmente, quando elas falavam rápido e todas ao mesmo tempo, e eu não entendia nada. Professora, o que es “ainda”? Como se explica esta palavra à alguém de outro idioma? Não falei mais “ainda”. Fui passando de maca em maca, pegando mãozinha por mãozinha, e lá da outra ponta uma gritava: “En el muslo es para arriba o para abajo?”, e outra, “em las caderas como hago? No me recuerdo, olvideime...” Comecei a fazer da minha tragédia, uma comédia. “Você esta falando da bunda, minha querida? Donde es la bunnnnnnnda?, perguntavam. Y abajo de la rodilla? Onde fica a rodilla, minha filha? Ah, o joelho! Muitas risadas. Elas não conseguiam falar joelho. Meninas, vocês sabem onde ficam os cacetones? Até o final do curso, eu conto. E mais risadas. Professora, cuando hace la cara? Eu: cara é de cavalo, nós temos rosto. No compreendo... Nem eu! Bem, a verdade é que foi um aprendizado mútuo. Ao final de cinco dias, dominava quase todas as partes anatômicas em espanhol, o que tornou meu trabalho mais fácil. Elas aprenderam um monte de palavrão em português, o que as tornaram mais humanas, porque riram muito. Na verdade me ensinaram algumas “más palabras”, também. Espero que a Kátia esteja se virando bem, pois me contaram que o português de portugal é diferente do daqui, e ela tem o agravante do sotaque carioca. Mas, com bom humor e a grande vontade de ensinar que lhe é própria, tenho certeza que dará tudo certo. Em abril de 2008, eu é que vou para lá. Ai meu Deus! Deixando a brincadeira de lado, a grande lição que tirei de alguns cursos que dei fora do Brasil foi que o pessoal é muito exigente e muito estudioso, questionando o professor e exigindo ao máximo as informações necessárias. Esta é a postura adequada. Percebo que aqui no Brasil, nós temos medo de exigir, questionar, querer mais, ter “ganas” de tirar o melhor que o professor pode dar. Ficamos em contemplação passiva, aceitando tudo o que é dito e feito como se fosse a verdade absoluta. Saímos de muitos cursos cheias de dúvidas, temos medo de perguntar, de parecer ridículas. Tudo errado! Estamos pagando e temos o direito à informação correta, precisa e completa. Estética virou um grande negócio, que gera milhões de dólares para o bolso de alguns, porém este dinheiro sai, em sua grande maioria de nossa conta bancária, do suor de várias horas dentro de nossa cabine, longe dos filhos, do marido, adaptando-se aos horários que as clientes precisam, enfim, é um dinheiro que temos que valorizar e saber onde investir. Mesmo quando um curso é gratuito, ele trás consigo a venda de alguma coisa, logo, é nosso direito saber exatamente o que iremos comprar, se aquele produto ou aparelho vai satisfazer nossas necessidades e se saíremos aptas a utilizá-los. Nunca, em praticamente 60 anos que a profissão de esteticista existe no Brasil, ocorreram tantos eventos, tantos congressos, tantos cursos e workshops. Nos bastidores, a quebra de braço dos empresários do setor e dos empresários de eventos, resume-se na seguinte pergunta: “Qual a estimativa de público profissional?”. Por acaso é de nós que estão falando. A disputa pela nossa presença e pelo nosso bolso é feroz! Valorizem esta grande arma que temos em nossas mãos. É obrigação de quem organiza congressos pensar em todas necessidades dos congressistas, e não no alto luxo das salinhas vips, que, muitas vezes, tem um bruta-montes na porta, impedindo nossa entrada. Quem tem que ser paparicada e muito bem tratada é a profissional que pagou inscrição, avião, hotel, largou a família e a agenda para prestigiar e aprender. É preciso entender que o grande maestro desta orquestra somos nós! |
Feliz e Próspero Dia do Esteticista! |
Matéria da Revista Personalite número 54 Voltar |