Tenho assistido alguns capítulos ou pedaços de capítulos da novela nova das oito, mas que não começa antes das 9 da noite: Páginas da Vida. Gosto da maneira como o autor, Manoel Carlos, aborda o dia a dia das famílias brasileiras, principalmente, as dos grandes centros urbanos, como também o uso que ele faz da altíssima audiência do horário nobre para colocar questões sociais importantes para a reflexão do público que acompanha a novela. Acabamos nos envolvendo com alguns personagens de forma positiva ou negativa. Tenho certeza que se encontrar a Anna (Deborah Evelyn) na rua dou um “carreirão” nela. Ela é magérrima, nem sei o nome de seu personagem, mas é uma louca, uma megera, que por não ter tido condições financeiras, quando criança, para estudar ballet obriga a coitada da filha de 9 anos a fazê-lo. A menina odeia dançar. A infeliz faz até o pobre do marido, que é um santo, a comer só salada e tudo de light e diet que existe à venda. Outro dia, em uma briga ele confessou à megera, que comia um lanche enorme quando chegava ao trabalho, tamanha a fome que ele sentia. Tudo isto porque ela quer realizar um sonho que é dela, confiscando a alma da pobre criança. Quando eu era criança adorava escrever e desenhar, mas nossa família, de origem muito humilde, não tinha condições de comprar o material adequado para os meus estudos. Quando a aula acabava, eu esperava todo mundo sair da sala e ficava pegando os tocos de lápis de cor de lápis preto, e tudo o mais que estava à disposição no chão ou no lixo, para aproveitar em meus trabalhos. O miolo de um toquinho de lápis de cor resulta, após um amassamento esmerado, em um monte de pózinho colorido para os desenhos e trabalhos. Sempre tirava notas excelentes com os restos que recolhia. Quando meu filho foi para o prézinho comprei a loja de material escolar quase inteira para ele. Nunca ele fez nada com o que comprei. Pedia o material dos coleguinhas emprestado. Fiquei indignada, mas imaginei que era a pouca idade. No primeiro ano do ensino fundamental, levei-o comigo e tentei seduzi-lo com todos os materiais, que na verdade eu queria, e não ele. A cara dele era de: “Que merda!!!!...”. Fui induzindo-o a querer tudo, ou pelo menos algumas coisas, ele pegou para eu não ficar triste. Na primeira semana de aulas, ele doou todo excedente aos colegas mais carentes e o restante praticamente não usou, preferindo anotações em papéis separados ou pegando os cadernos dos colegas emprestado. Uma frustração! Nunca mais tentei, pois caiu a ficha: os filhos são trazidos ao mundo por nós, porém são pessoas que não nos pertencem. É evidente que precisamos conduzi-los, orientá-los e colocar, impor mesmo, se necessário, os limites. Mas, realizar sonhos nossos, usando um filho ou filha é uma crueldade. A menina da novela, a filha da Anna, menstruou aos nove anos. Quem garante que a pressão da mãe não colaborou para esta precocidade; armazena guloseimas, come escondido e depois vomita, levando-nos a crer que se trata de um caso típico de bulimia, que sabemos que tem uma alta porcentagem de óbito, a médio e longo prazo, e mais, a família não percebe, porque menosprezamos a inteligência e a sagacidade cada vez maior desta turminha.
Tinha uma cliente, de dezesseis anos, que desde a primeira sessão foi acompanhada pela mãe. A mãe tinha sido “A Garota da Primavera”, em mil, novecentos e nada... e nada, não passou disto. Ela tinha certeza que seria atriz, miss, modelo, mas casou-se e transferiu seus sonhos para a filha, que por sua vez, era desleixada, nada vaidosa, do tipo nem um brilhinho nos lábios, para desespero da “baranga” da mãe. Olha, atender aspirantes à modelo já é um “saco”, vazio, diga-se de passagem, só falam bobagens. Agora atender meninas que pretendem ser top models, porque suas mães decidiram; e agüentar estas mães no pé, por duas horas consecutivas é “praga de madrinha” na vida de uma esteticista. Já na primeira avaliação da Fernanda (nome fictício) percebi que aquilo não ia dar certo. Eu perguntava as coisas para ela, mas a mãe é quem respondia. A menina ensaiava seus primeiros passos para o hábito da tricotilomania, enrolando um chumaço de cabelos e olhando para o teto. Chegou em um ponto que eu disse: “- Dona mulherzinha, será que sua filha pode responder alguma pergunta?”, ao que ela respondeu: - “Mas eu sei tudo da vida da minha filha...”. Eu disse? “- Verdade?”. E os meus olhos se encontraram com os de Fernanda. Foram só alguns segundos, mas deu para perceber o sofrimento daquela garota. A mãe pagou três meses de tratamento adiantados e à vista. Desconfiei. Esmola demais. Sabia que aquilo sairia muito caro. Na primeira sessão, que já foi no dia seguinte, expliquei à Fernanda, qual seria nossa conduta, qual o plano para o tratamento estético dela, que na verdade, parecia simples. A mulher não calava a boca. Pedi: “- A senhora não poderia ficar na recepção? Quem sabe um chá, um café, uma água?; Incisiva, ela respondeu: “- Não, obrigada. Estou muito bem aqui”. Pensei: “Mas eu não estou e nem sua filha, sua enxerida”. Quem é mais antiga na profissão se lembrará que antigamente, por não haver produtos já preparados para ionização, utilizávamos ampolas de Thiomucase e Hialozima, duas injeções que os médicos aplicavam na mesoterapia. As esteticistas dissolviam em soro fisiológico e umedeciam as placas do aparelho para que penetrasse os produtos com a finalidade de melhorar o aspecto inestético provocado pela celulite e pela gordura localizada. Os resultados eram muito bons. O risco era grande, pois a dosagem não podia ser elevado para de encontro com o equipamento elétrico não causar queimaduras na pele da cliente. Detalhe: queimadura provocada por corrente contínua é profunda e a cicatriz não sai nunca mais. Hoje, com os recursos modernos da medicina a laser, talvez. Mas, na época, não tinha jeito, não. O agravante é que a cliente não sentia a sensação de queimadura, no máximo era uma coceirinha, que muitas, achavam normal, que estava “fazendo efeito”. Era o terror das esteticistas!
O problema da Fernanda era muito pequeno. Um dos culotes era maior (uns dois centímetros) e continha duas ondinhas e um furinho. Dava sempre um reforço na massagem e na máscara corporal naquela região. Sempre tive contador de minutos para cada cliente para não correr o risco da pessoa ficar demais nem de menos em algum equipamento. Para aquela égua daquela mãe não adiantava, quando faltavam dois ou três minutos para o relógio apitar ela já começava a me chamar. Meu Deus, que dinheiro maldito! Naquele dia estava com um mal pressentimento, quando a Fernanda chegou, claro, acompanhada pelo seu karma (a mãe). Fiz a assepsia de abdômen e pernas e coloquei o ionizador, avisando: “- Por favor, se sentir algum desconforto, qualquer coisa, me chama”. Como ela chegou mais cedo, estava sozinha com a mãe, na sala grande do corporal. Eu tinha costume de deixar dentro das marmitas de inox, as seringas preparadas para colocar nas placas dos aparelhos das clientes que chegariam a seguir. Corri até o banheiro, pois o próximo grupo chegaria tudo de uma vez, como sempre. Duas funcionárias preparavam as outras duas salas. Vamos dizer que Fernanda e sua mãe ficaram uns cinco minutos sozinhas. Esta infeliz passou a mão em uma seringa (ela conhecia minha rotina) e encheu a placa do culote, segundo ela, “defeituoso” da filha e, claro, mandou a menina ficar quietinha, alegando que eu estava usando pouco para economizar e, por isso, o culote dela não estava melhorando rápido. Bem, quando fui tirar o aparelho da menina, quase tive um troço. Um buraco enorme, vermelho, fundo, com as bordas inchadas. Quando perguntei se ela não tinha sentido nada, ela olhou para a mãe e disparou: “- Senti, sim. Pinicou demais, coçou demais, mas esta maluca da minha mãe, colocou o aparelho no último e também roubou sua seringa e encharcou a plaquinha desta perna aqui...”, falou apontando. Bem, pessoal que este relato sirva de lição para nós. Sem acompanhantes, nunca deixar cliente sozinha, quando estiver em aparelho e sempre desconfiar, quando a coisa é fácil demais.