A Ejaculação do Vapor

Fico impressionada com os avanços da tecnologia em todos os setores do conhecimento humano, inclusive em nossa área: a Estética. Fazendo uma viagem no tempo, surgem lembranças da época que comecei a trabalhar com estética facial. Como vocês sabem – já comentei nesta coluna algumas vezes – iniciei meu trabalho com a massoterapia, mais especificamente, com a massoterapia terapêutica. Meu sonho dourado, minha síndrome de “resolver todas as dores do mundo”, além de ser impossível, era frustrante, pois podemos aliviar, minimizar alguns desconfortos, mas não existe uma técnica de massagem que solucione, alguns problemas crônicos, de que padecem algumas pessoas. Geralmente, é a equipe multidisciplinar que consegue os melhores resultados. Bem, voltando ao assunto do começo de minha carreira como “massagista” (naquela época o nome, ainda não tinha a conotação pejorativa de “mulher de programa”), depois de resistir uns dois anos, só fazendo massagens, as clientes me venceram pelo cansaço, pois diziam: - “Rosí, tenho que vir até aqui para a massagem, depois ir à fulana para a limpeza de pele, depois na beltrana para a depilação, depois em não sei quem para fazer as unhas, assim não dá... Dá um jeito, para ser feito tudo aqui...”. Parecia que nascia uma tendência, que hoje observamos na maioria dos estabelecimentos de estética, onde vários profissionais se reúnem no mesmo endereço, para assegurar que a clientela tenha todos os serviços à sua disposição sem precisar se deslocar, economizando assim, seu tempo. Resolvi então, fazer um curso de estética facial e corporal, pois àquela cliente que me procurava para fazer a massagem de relaxamento ou de dor nas costas, também queria tratar sua celulite, sua flacidez, entre outros problemas estéticos. Então, após alguns meses, já tinha aumentado meu leque de possibilidades de atendimento. Hoje, reclamamos de várias coisas em nossa profissão, mas quem é mais “antiga”, como eu, se lembra bem que não tínhamos toda esta maravilha de equipamentos e produtos, para facilitar nosso trabalho e otimizar nossos resultados. Cheguei a utilizar uma máscara (sem termostato), que era ligada direto na tomada e esquentava que era uma loucura. Colocávamos aquele troço quente, no rosto das clientes para “abrir os poros” e amolecer as lesões, que seriam drenadas posteriormente. Algodões umedecidos eram colocados na região dos olhos e umas duzentas gazes embebidas em loção amolecedora, eram espalhadas pela face. Em cima de tudo isto acomodávamos a tal máscara elétrica. A cliente, coitada, ficava parecendo o “Jason”, aquele do filme de terror. E a gente ficava apavorada, espiando toda hora se não estava esquentando demais, pelo perigo de queimaduras. Por que cliente é assim, acha que se esquentar bastante, se doer bastante, se ficar bem roxo fará “mais efeito”, então a cara dela podia ficar em carne viva, que ela não reclamava. Nós é que tínhamos que controlar manualmente para evitar danos à pele. Já havia vapores de ozônio no mercado. Era o sonho de consumo de todas as profissionais. Mas era um equipamento caro na época. Nem todo mundo podia comprar, mesmo porque não haviam as facilidades de parcelamento, como existem hoje. O empresário conseguia, no máximo, dividir em três pagamentos, e olhe lá!

Coisas de Cabine 44
Lembro-me bem daquele dia. Cheguei em uma feira, no Rio de Janeiro, e tinha vontade de me ajoelhar, em frente àquela maravilha! Que coisa mais linda! Gente, era um vapor que parecia uma nave espacial. Cheio de botões coloridos, três canos de saída de vapor, recipiente para colocação de óleos aromáticos, um tripé lindooooooooo com rodinhas, tudo de bom. O defeito era a disparidade entre o preço daquele mimo e minha conta bancária. Confesso, que não conseguia nem prestar atenção nas palestras. Todo intervalo lá estava eu na frente do estande. Parecia um cachorro, em frente de uma máquina de assar frangos. Tinha mais um agravante: era importado e a comunicação com a pessoa que estava atendendo era muito difícil, quase impossível (só falava inglês!). O vapor ficava ligado nos intervalos das palestras, soltando aquela fumaça densa, maravilhosa, com aquele cheirinho de ozônio... Só tinha um aparelho, o que estava em exposição. Pronta entrega, nem pensar. Tinha vontade de sair correndo com ele. Que paixão avassaladora! Acabei comprando um nacional mesmo e acalentando um sonho para o futuro. Ainda bem, que os sonhos não envelhecem... Voltei do congresso com a novidade (não a que eu queria, mas as clientes não sabiam deste detalhe). Tinha uma cliente, a Renata, que sempre marcava o primeiro horário, nos retornos de congressos. Sabe, aquela cliente que gosta de ser a primeira a experimentar tudo de novo que a gente traz das feiras? Pois é. Era ela. Eu estava orgulhosa, pois não usaria mais aquela coisa horrorosa no rosto de ninguém. Vamos à limpeza de pele da Renata. Fiz todos os procedimentos iniciais de limpeza, adstringência, proteção dos olhos, enquanto a caldeira do vapor aquecia. De repente, comecei a ouvir um barulho borbulhante e preocupante. Não me recordava de ter ouvido aquilo no treinamento rápido que eu tinha tido, na feira mesmo, no estande. Aquele negócio começou a trepidar; o local por onde saía o vapor estava com umas gotinhas de água. Eu olhava para ele e tinha a impressão de ter uma pistola apontada para mim. Pior, na verdade, estava no rumo do rosto da Renata, que inocente, se refastelava na maca, com os olhinhos tampados, aguardando “a novidade”. Eu na cabeceira da maca vi, em fração de segundos, meu mundo desmoronar. Alguma coisa estava errada, muito errada. Mais uma balançada do bicho, e eu me projetei à frente do “assassino”, levando uma imensa ejaculada de água fervendo, na altura da boca do estômago. Jesus! Queimou, ardeu, doeu. O pior é que eu não podia fazer nenhum barulho, dar nenhum gemido, para a mocinha não desconfiar. Agüentei firme a ejaculação completa, que deve ter durado uns dois minutos – que pareceram uma eternidade. Depois de plenamente satisfeito, o vapor começou a soltar... vapor! Chamei minha assistente e a deixei de prontidão, ao lado do “tarado” do vapor. Fui ao banheiro ver o estrago e pensei que, o que via em minha barriga, seria muito pior no rosto da Renata. Daria um processo mais ou menos, além deste tipo de ocorrência se espalhar como um rastilho de pólvora, entre minhas clientes. Seria um desastre para minha reputação. Tenho a cicatriz desta queimadura até hoje. O que aprendi?

1 - O barato, sai caro. 2 – Nunca se coloca um aparelho na cliente, sem fazer testes antes. 3 - Treinamentos adequados são imprescindíveis. 4 – Deve-se ter informações sobre o fabricante, antes de efetivar a compra (o vapor estava com defeito na caldeira). 5 – Fazer um seguro de vida e de acidentes pessoais. Lembrando agora dá para rir, mas na época, e durante bastante tempo, deu só para chorar...





Aquele Abraço!!
Profa. Rosí Garcias
Revista Personalité
personalite@uol.com.br

Matéria da Revista Personalite número 44

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